Escolho um sapato. Não tenho muitos, marrons e pretos. Alguns nem são mais confiáveis, se gastaram nos muitos dias descontrolados. Mas é preciso mais ainda escolher um que combine com a calça, ou preto ou marrom, não há mesmo muita opção.
Depois esta se esquece, é um fato bem comum escolher um sapato para sair de casa. As escolhas são muitas, além dos sapatos. E se elas, como as melhores, estão no plano opaco das palavras e das imagens, ainda pior. Escolher é afastar da frente uma multidão de coisas sem importância ou importantes só para outra ocasião.
Escolher também acaba sempre numa decisão isolada, quase vitimada pela solidão e pelo silêncio. Porque geralmente não há muita solidariedade dos outros quando estamos assim, prestes a decidir por alguma coisa, nome ou sapato. Somos os culpados disso. Ninguém gosta de escolher na frente das outras pessoas, como se precisasse de uma confirmação ou solidariedade.
Na verdade, não há a quem recorrer. Quem sugere ou se dispõe a pensar junto já fez, ele mesmo, a sua escolha e a está transferindo como um ganho coletivo, o que nunca é o fato. É preciso dar uma clara aprovação da escolha sugerida, como se todo o tempo se pensasse nela, mas não se confirmasse sequer o nome. Mas parece falso, estranho, de outro lugar.
Não tem remédio: as escolhas são atos pessoais legítimos, do fundo do coração, têm alma e trazem a felicidade mesmo que momentânea. Requerem um aprumo, uma atitude sólida, uma referência de quase toda a vida corrente. Feita a escolha, o sentimento é de alívio, vitória pessoal, realização de desejos de pura satisfação.
O caso das eleições deste domingo.