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26/09/2014

80 anos
Com o comedimento que se requer para essas ocasiões, que sempre são delicadas, muito pessoais e intransferíveis por isso mesmo, completei 80 anos. É muita idade. É muito tempo. Mas, não comemorei porque acho que faz parte de uma espécie de vitória sobre as coisas. Uma pequena vitória. Muito Pessoal. Também intransferível. Não posso sair alardeando que sou eu que consegui tamanha façanha, até porque não é façanha, é resistência. Uma pura resistência. E aí, o mundo fica um pouquinho diferente e a gente nem sempre percebe.

A idade tem uma qualidade intrínseca, além de outras. A idade é, sobretudo, a acumulação de experiência. É uma espécie de esclarecimento sobre as coisas que acontecem. É o modo como a gente já fez coisas, já passou por elas, tomou decisões a respeito delas, voltou atrás, se corrigiu e até já ficou quieto. A experiência é isso. É um amplo quadro, dentro do qual a gente consegue transitar para cá e para lá e vai acrescentando aquilo que a gente é. Quem conhece a gente são as pessoas próximas. As pessoas à distância fazem uma ideia e sempre essa ideia é um pouco, assim, ligada à aparição, ao movimento, à frase. Enfim, não diria coisas superficiais, não, mas coisas secundárias em relação aquilo que tanto interessa que é esse autoconhecimento, esse reconhecimento. Então, a gente tem que lidar com calma.

Eu hoje sei exatamente que muitas coisas já passaram. A essas que já passaram, a pergunta é: ficaram onde? Pois ficaram em algum lugar. Esse lugar é a descoberta que a gente precisa fazer. Precisa saber onde ficou aquela experiência, com os seus caracteres, com a sua exigência, com a sua mobilidade. Onde ficou? De que modo aparece? E como ela agora pode me ajudar?

Eu caminho de um lado para o outro às vezes pensando nisso. Mas com a idade em que cheguei, eu penso exatamente que já é um marco. Já é uma posição. Já é uma relação. Já consigo olhar para frente e ver algumas coisas. Isso é idade. Talvez, possa ser um pouco de sabedoria.


 
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