Muitas vezes, quase sempre, imagino que não seja assim. Escrevo, leio, falo, gesticulo, fico quieto (mais tempo do que se imagina), o que é mesmo que poderia interessar mais às pessoas? A escrita tem uma imensidão por trás - atenta ou distraída, depende do grau das provocações ou da surpresa. Mandam e-mails sucintos ou de uma minúcia curiosa, que abre outro universo de possível compreensão, mandam cartas no velho estilo que já tinha quase esquecido pelo correio ou postam na caixa à frente da casa ou sobre a mesa de trabalho, anônimas, discretas, para se ler depois do expediente.
E muito menos o visual, a barriguinha que ainda porto, em que pesem os tímidos esforços para adelgaçá-la, é uma referência pública. Pelo contrário, me elogiam por tê-la baixado. Faço um retrospecto de mim mesmo à frente das pessoas. É um exercício interessante, ninguém percebe o que seja, mas suspeitam de que alguma coisa está sendo engendrada. E só então, depois de considerar parte da minha vida e minha profissão, reconheço que é o timbre de voz.
Sou um sujeito relativamente grande. Para a minha juventude, a boa altura me levou ao basquete e ao vôlei, esportes que exigem mais de 1,80m, e me deixou como zagueiro no futebol. Se abro os braços ou gesticulo bastante (há ainda desses entusiasmos da fala), chamo a atenção dos circunstantes, mesmo os das outras mesas. Mas já quase não gesticulo, prefiro falar baixo e ser comedido. Não seria um circunspecto falando baixo que haveria de chamar a atenção.
Lembro-me, então, de um amigo de infância, o Hans, quando perguntado o que poderia dizer a meu respeito. Ele sentou-se melhor na cadeira para dar mais ênfase à resposta e me definiu:
- O Ruy é o único cara que diz manteiga, não mantega, como todo mundo.
Foi uma distinção juvenil.